sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Números do PIB: Fracasso da Nova Matriz e desmoralização do discurso que a culpa é do resto do mundo

É difícil encontrar em economia um caso tão claro de uma política econômica que deu errado como a Nova Matriz Econômica do primeiro governo Dilma, sei que alguns vão pensar que a essa altura criticar a Nova Matriz é chutar cachorro morto, mas não concordo que seja. No final da década de 1990 eu e muitos outros economistas da minha geração e mesmo da geração anterior cometemos o erro de pensar que estávamos livres do intervencionismo no estilo da Nova Matriz, como sabemos hoje foi um erro grave, com a guarda baixa os alquimistas da economia encontraram espaço para voltar com fórmulas que foram vendidas como capazes de fazer o Brasil crescer ou recuperar a força da indústria com apenas alguns decretos e mudanças nas políticas monetária e fiscal. Mesmo hoje não estamos livres de tais saídas fáceis, se uma pessoa desatenta ler nos jornais as recentes medidas da área econômica é muito provável que pense que Mantega ainda está no comando.

Os números do PIB divulgados hoje mostram de forma inequívoca que a Nova Matriz não foi capaz de entregar o que prometeu, outros números da economia mostram que além de não ser capaz de entregar o que prometeu a Nova Matriz tirou do eixo o que estava funcionando. Como é de conhecimento comum a Nova Matriz foi apresentada como uma política econômica que seria capaz de estimular o crescimento, Dilma chegou a falar que seria a presidente do PIBão, aumentar a taxa de investimento e estimular a indústria. Os dados mostram que a economia está encolhendo, o investimento caindo e a participação da indústria no PIB continua em queda livre. O quadro fica mais grave quando levamos em conta que a inflação não para de subir, a processo de redução da pobreza parou e aparenta ter sido revertido e mesmo o desemprego, que parecia ser a única variável imune ao desastre da Nova Matriz, começou a dar sinais claros que saiu de controle.

Comecemos com o PIB (os dados usados estão aqui e aqui), na comparação com o trimestre anterior houve uma queda de 1,9% que em termos anualizados corresponde a uma queda de 7,8% do PIB, o número anualizado é relevante para comparações com outros países, em particular com os EUA, que divulgam números anualizados, e ajuda a perceber o tamanho do problema que estamos. Ao contrário de outros períodos dessa vez nem a agropecuária escapou e teve uma queda de 2,7%. A indústria caiu 4,3% e o setor de serviços, um setor importante do ponto de vista do emprego, encolheu 0,7%. Do ponto de vista da demanda houve queda de 2,1% no consumo das famílias, queda de 8,1% no investimento e aumento de 0,7% no consumo do governo. Aparentemente os donos e as donas de cada pelo Brasil estão tendo mais sucesso em reduzir gastos do que a equipe liderada por Joaquim Levy.

Passemos a comparação com o mesmo período do ano anterior, uma análise que me parece mais relevante. Em relação ao segundo trimestre de 2014 o PIB encolheu 2,6%. Pelo lado da oferta a agropecuária foi o único setor que não diminuiu em relação ao segundo trimestre de 2014, houve um crescimento de 1,8%, a indústria encolheu 5,2% e o setor de serviços encolheu 1,4%. Pelo lado da despesa houve queda no consumo das famílias (2,7%), no consumo do governo (1,1%) e no investimento (11, 9%). Apesar da insistência do governo em culpar o resto do mundo por nossa crise as exportações foram o único grupo da demanda que apresentou crescimento, cresceu 7,5% em relação ao segundo trimestre de 2014, as importações caíram 11,7%.

Dos principais setores da indústria a maior queda registrada foi na indústria de transformação que encolheu 8,3% seguida de perto pela construção civil que diminuiu 8,2%, a produção e distribuição de eletricidade, água e gás diminuiu 4,7% e, reforçando a tese que o resto do mundo mais ajuda do que atrapalha, a indústria extrativa que depende muito da economia internacional cresceu 8,1% e evitou um desastre ainda maior na indústria. A queda da participação da indústria de transformação no PIB é um dos atestados de fracasso da política econômica de Dilma. Quando Dilma tomou posse a indústria de transformação representava 15% do valor agregado e 12,7% do PIB, no segundo trimestre de 2015 a indústria de transformação representou 10,7% do valor agregado e 9,1% do PIB. É triste lembrar que fortalecer a indústria de transformação foi um dos motivos alegados pelo governo para abandonar o Tripé Macroeconômico que pelo menos vinha conseguindo manter a inflação controlada.

A queda da taxa de investimento tanto medida como formação bruta de capital fixo (aquisição de máquinas, equipamentos e estruturas) quando medida pelo investimento propriamente dito (formação bruta de capital fixo mais variação dos estoques) é outro atestado do fracasso da Nova Matriz. Uma política econômica que tentou reduzir juros na marra para estimular o investimento acabou por levar o investimento de aproximadamente 20% do PIB para 17,5% do PIB. A queda do investimento sinaliza que recuperação ainda não está no horizonte, pela primeira vez desde 2009 houve uma queda nos estoques no segundo trimestre.

Os números do segundo trimestre de 2015 são devastadores, um governo normal estaria preocupado em tomar as medidas necessárias para que a economia saia o quanto antes da crise. Infelizmente nosso governo se encastelou em mundo de fantasias de onde tudo que a presidente consegue dizer é que o próximo ano não vai ser maravilhoso. Estamos mal.



segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Clube dos Céticos

Hoje fui surpreendido por um trecho de um debate entre Alexandre Schwartsman e Luís Carlos Mendonça de Barros (link aqui), no trecho Schwartsman fala de uma visão um tanto ingênua (o trecho começa após a descrição da tal visão, mas no restante do vídeo é possível imaginar qual seja) e Mendonça de Barros toma as dores de quem possui tal visão e coloca Schwartsman em um Clube dos Céticos. Segundo Mendonça de Barros o clube seria formado por pessoas que acham que o Brasil está fadado a dar errado, o termo fadado me pareceu demasiado forte, talvez possa ser explicado pelo calor do momento, mas se no lugar de fadado Mendonça de Barros tivesse dito pessoas que acreditam que o Brasil está condenado a dar errado em um horizonte de tempo onde é possível fazer previsões eu, mesmo sem ter sido convidado, me colocaria como parte do clube. Como fica claro no trecho Mendonça de Barros não apenas não pertence ao Clube dos Céticos como é um crítico do Clube, sendo assim vou tomar a liberdade de dizer que Mendonça de Barros faz parte do Clube dos Esperançosos.

Antes de seguir adiante creio que devo fazer um registro. Quem me acompanha aqui no blog ou no FB já me viu fazer críticas duras a colegas de profissão que passaram por governos desastrosos e aparecem e vez em quando para dar conselho esquecendo as bobagens que fizeram, exemplos são economistas que participaram de equipes econômicas que congelaram preços dando lições de como combater a inflação. Não coloco Luís Carlos Mendonça de Barros nesta lista, é verdade que discordo de várias ideias de Mendonça de Barros e tenho várias críticas ao governo FHC, inclusive a forma como foram feitas as privatizações, mas vejo o saldo dos governos FHC como extremamente positivo. Só o fim da inflação descontrolada seria motivo para listar o governo FHC como um dos melhores que já tivemos e (quase) me fazer ficar arrependido de ter anulado voto em 1994 e 1998, mas além da estabilização os governos FHC nos legaram as privatizações, reformas e uma política econômica que perdurou até 2010 marcando um período de crescimento, estabilidade de preços e redução de pobreza como poucas vezes registrados na história. Mendonça de Barros não é um daqueles economistas que meu amigo Adolfo Sachsida bem chamou de economistas do fracasso (link aqui), mas ele é parte do Clube dos Esperançosos e eu sou (ou pelo menos quero ser) do Clube dos Céticos, como todos sabemos jogo é jogo e quando a bola está rolando não há espaço para elogios nem cuidados além dos que já tomei nesse parágrafo de preliminares.

O Clube dos Céticos costuma ser duramente cobrado e acusado nos tempos de bonança, principalmente por empresários, políticos que ocupam o poder e, pior de todos, pelos apoiadores dos políticos que ocupam o poder. Já os esperançosos costumam ser cobrados em momentos de crise como o que estamos vivendo. Sendo eu membro ou pelo menos aspirante ao Clube dos Céticos não vou perder a oportunidade de pegar no pé de Mendonça de Barros, o homem do Clube dos Esperançosos.

Comecemos por um texto publicado no Valor Econômico em janeiro de 2012 (link aqui). No texto Luís Carlos Mendonça de Barros aponta o ativismo econômico do governo Dilma como uma possível fonte de problemas e faz referências ao arcabouço teórico de economia de Dilma que seria mais claro e sofisticado que o de Lula. Ironias à parte o trecho que quero destacar do artigo é o seguinte:

“Nas minhas palestras e encontros com investidores e empresas - no país e no exterior - tenho citado este fato para mostrar que considero o Brasil o mais estável e seguro dos Brics. E digo ao leitor do Valor que esse ponto marca muito a opinião de meus ouvintes.”

Leiam o texto com cuidado e vejam como é difícil encaixar o trecho acima na análise que o autor realiza, fosse Mendonça de Barros um membro do Clube dos Céticos a análise que fez no texto o levaria a não recomendar o Brasil ou pelo menos recomendar com muita cautela, como ele é do Clube dos Esperançosos chegou a conclusão contrário e listou o Brasil como o “mais estável e seguro dos Brics”. Basta olhar a trajetória do câmbio para ver que os investidores que seguiram o conselho de Mendonça de Barros devem estar bastante contrariados...

Ainda em janeiro de 2012 Mendonça de Barros escreveu para o UOL um texto chamado “Minha Bola de Cristal para 2012” (link aqui) onde dizia que:

“No caso do Brasil, mantenho a visão de que vamos continuar crescendo entre 3% e 3,3%, com uma taxa menor nos dois primeiros trimestres do ano e uma aceleração na sua segunda metade.”

Em 2012 a economia brasileira cresceu 1%! No mesmo texto ele justifica o prognóstico dizendo que:

“A fonte principal do crescimento continuará a vir do consumo interno, sustentado pelo aumento dos salários, do emprego e do crédito ao consumo. Nesse cenário, o Brasil vai continuar a receber volumes expressivos de investimentos internacionais e, com isso, conseguir complementar nossa escassa poupança interna e permitir manter um nível decente de investimentos.”

Olhando de 2015 me parece justo dizer que se não tivesse tomado pelo espírito do Clube da Esperança o autor não teria feito nem a previsão que fez nem muito menos teria dado a explicação que deu para previsão, um pouquinho de ceticismo teria permitido a Mendonça de Barros concluir que as distorções na microeconomia que ele bem apontou no texto do Valor, publicado no mesmo mês do texto do UOL, impediriam tanto o crescimento previsto quando inviabilizariam o funcionamento da lógica descrita no trecho acima.

Sigamos para 2014. Em janeiro daquele ano Mendonça de Barros em entrevista ao Valor Econômico reproduzida em várias páginas na internet (link aqui) afirmou que:

“A expectativa errada foi criada por analistas que achavam que estávamos à beira do precipício. Eu nunca comprei essa teoria, portanto esse número não me causa surpresa. Mas se a economia cresceu 2,3% no ano, ao se pegar o quarto trimestre de 2013 contra o quarto de 2012, o crescimento já é menor, de 1,9%. O que quer dizer que, na ponta, a economia já está desacelerando, por isso a previsão para 2014 é de alta de 1,7% ou 1,8%. Ao se olhar a curva das vendas do varejo, que é uma proxy do consumo, ela vinha crescendo 10% em termos reais entre 2010 e 2011, e hoje cresce 4%. A terapia é correta. Mas isso leva a um crescimento mais baixo.”

Em 2014 a economia só não teve crescimento negativo por conta de uma mudança na metodologia de cálculo do PIB feita pelo IBGE, mesmo com a mudança o crescimento foi de 0,1%. Um cético teria aprendido com o erro de 2012 e não teria dado a seguinte declaração a respeito dos que acertadamente previam que 2014 seria um ano muito ruim:

“Pessimismo é exagerado porque boa parte dos agentes substituiu o cérebro pelo fígado e essa é a pior coisa que pode acontecer para um analista econômico.”

Quem diria... ou o fígado pensa melhor do que o cérebro ou não eram bem os pessimistas que estavam pensando com o fígado. Novamente acredito que um pouco mais de ceticismo ou pessimismo e um pouco menos de esperança Mendonça de Barros teria visto claramente que os erros no setor energético e no superávit primário eram maiores, mais desastrosos e tinham mais companhias do que olhos dominados pela esperança poderiam enxergar.

Deixei o trecho mais marcante para o final. O texto não era exatamente sobre o Brasil e sim um conjunto mais amplo de países compostos pelos Brics mais Argentina, Chile, Indonésia e Turquia. O trecho é de um texto publicado no Valor Econômico (link aqui) e reproduzido em vários blogs, leiam com atenção:

“Tenho manifestado minha opinião de que não acredito no cenário de catástrofe que os mercados vêm precificando. Repito aqui a mesma confiança nos ajustes não traumáticos - induzidos pela ação dos governos - pelos quais passam de tempos em tempos as economias de mercado. Construí esta forma de encarar estes tremores a partir do pensamento e reflexões de Lord Keynes. E não me arrependi dela ao longo de toda a minha carreira no mercado financeiro, como personagem e analista.”

Particularmente acredito que em relação ao Brasil e outros países da lista os mercados pecaram por excesso de otimismo, mas essa é uma discussão longa, ao contrário dos outros trechos que citei nesse post o trecho acima não é facilmente desfeito com uma olhada rápida nos dados. É um trecho onde é feita uma declaração de confiança na capacidade dos governos de evitarem crises, inclusive em países como Brasil e Argentina. Na leitura de um cético me parece um caso clássico onde a esperança vence a experiência, uma declaração comparável à do sujeito que indo para o oitavo casamento afirma confiar na capacidade dos laços matrimoniais resolverem crises conjugais.